Tingiste as camélias do meu prado com sangue de uma ferida que me abriste sem pedir licença. Ali pintadas de gotas vermelhas, escorrendo sobre a terra castanha, pálida e seca, passou-lhes nas pétalas uma brisa leve, fresca, confortável. Três dias depois correste a colher as flores quase mortas. Numa folha de jornal rasgada e suja, embrulhaste as camélias que um dia foram brancas sem pecado.
Aproximaste-te de mim oferecendo com a tua mão esquerda o ramo que fizeste, e na outra, fechada, trazias uma agulha e linhas para me coser a ferida ainda escancarada. Vieste enganado. Deixa-me estar nesta dor e olha-me nos meus olhos aguados de sal e tristeza. Esta é a verdadeira recordação que me hás-de sempre trazer.
Afrânio Peixoto