quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

XX

Saudade, saudade que me desgastas e fazes ferver na memória sonhos que, enganando-me, julgo estarem adormecidos. Se te recordasses do café e do vinho de outrora… Os lábios pintavam-se de roxo por causa das uvas calcadas e o âmago da alma flutuava entre nuvens de fumo nascidas da ponta dos cigarros. Estremece-me o coração, hoje já meio descosido do corpo, quando me lembro do pormenor das meias com rendinhas que espreitavam por entre o corte da saia comprida que à força cobria as pernas tímidas, delicadas.
Não sei se ainda deambulas por aí e sorris quando os pássaros partem em debandada do cimo dos telhados. Nem sei se ris dando gritinhos e a tapar a cara com as mãos e por entre os dedos tentas contar as folhas dos caules dos narcisos, pois achavas que contar as pétalas obrigava a arrancá-las e "isso devia ser crime". Só sei que me desgasto de pensar e me desfaço e refaço, porque por ti, Saudade, não me canso de esperar.

Afrânio Peixoto

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

XIX

Era frio. As folhas boiavam na água gelada. O branco caia e formava montes que lembravam montanhas, onde os audazes rezam e penduram bandeirinhas coloridas que bailam ao vento que vem de uma outra alma.
Dotado de uma leveza que só vista, o  açúcar derretia na água fria, tal como uma melodia se desfaz na pele de uma bailarina que ontem enfeitamos de carmim.

António Magalhães