sábado, 28 de abril de 2012

IX

Estavam à beira do Mississípi. No barco que o atravessava ouvia-se uma jam, lembrava-se o Tom Sawyer. O azul pairava-lhes no peito. O candeeiro, a meia luz, balançava sobre o copo de whisky. A voz negra, o rouco, o cego, tocava emoções. Tocava piano, suava a saxofone, deixava saudade. Entre gospel e obscenidades sentia-se um arrepio na pele. Sentia-se um contrabaixo, "Yeah, It's my baby!"
Esta é a igreja onde as regras são rainhas, onde o preto da raça é a raiz de três acordes. E isto, e tudo isto!, enche-me o peito, vibra-me cá dentro, faz-me verter lágrimas de vida que é sentida, vivida e, jamais, em momento algum, arrependida.


António Magalhães

sábado, 14 de abril de 2012

VII

Lá estava ele, esperando, não que a sua nobre companhia não fosse pontual mas mesmo assim... As pessoas esperavam-no.
Franzino, com o seu colete vistoso de estampa de sofá, bordado com linhas requintadas, aparentava-se a um pássaro. A um pássaro daqueles que ficam pousados no ramo mais alto das árvores, inchando o peito. 
Aquela postura era-lhe necessária, afinal não se critica de baixo.
No seu ar meio distraído, ele entretinha-se a criticar o mundo. Às vezes profissionalmente, outras por diversão. Com um ar bem irónico.
Aquele que o esperava interrogava-se, agora, como podia aquela figura apaixonada ser um destruidor dos sonhos daqueles que, na sua ingenuidade, acreditavam nas mães que diziam "O meu filho é um artista." Mas não eram. Nem talento. Nem espírito. Apenas aspiração.

De repente o pensamento foi-se em sobressalto, o café entornou-se com uma voz familiar que exclamou chilreando:
Boa noite, caro Amigo!

António Magalhães

sexta-feira, 13 de abril de 2012

VI

   As velas estavam acesas, empestavam a sala com um leve cheiro a canela que deixava no ar uma pequena excitação.
  Os olhares penetravam um no outro, os sorrisos meigos e delicados falavam as palavras que não se diziam.
  Era o seu aniversário.
  Na minha cara as gotas do suor que me paravam os ossos emanavam um mistério, e ela perguntava-me "Que preparaste para mim".
  Eu não respondia. As horas inquietas teimavam em não passar. Deitava à boca a última  gota de champanhe que preenchia o copo.

  A campainha.

  Levanto-me de rompante da mesa e vou à porta, rodo a maçaneta no sentido dos ponteiros do relógio. A porta abre.
  Convidara-os para esta festa, para uma festa que nem eu próprio sabia se queria. São cinco.
  Todos eles, cinco. Convido-os a entrar.
  [Não em mim, nela. Não em mim.]
  "Vem aqui meu amor." Ela aproxima-se e o seu rosto fica estampado com espanto.
  Quase que consigo ouvir o seu pequeno coração quebrar o tórax. "São teus."
  Ela agora caminha em direcção à sala e estes homens quase por instinto seguem-na. Eu fico aqui. Quieto.
  Agarro a caixa das cigarrilhas e acendo uma. Fumo levemente o seu peso entre os meus dedos.
  Agora vou para a sala.
  Vejo-os selvagens, invadindo uma selva que é minha. MINHA!
  Sento-me na cadeira de palhinha entrançada e fico a olha-los já nus, desbravando como cães rafeiros os contornos do corpo a que pelo sinal da cruz me pertence.
  Ela finta-me prazerosamente. O meu corpo desfaz-se, mesmo ali, por entre as tranças da cadeira.


  Hoje nunca mais te vi, do teu rosto pouco me lembro, já nem sei se estou aqui. Quem és tu?


                                                                                        Afrânio Peixoto

quinta-feira, 12 de abril de 2012

V

Era uma noite de insónias, daquelas que vêm, daquelas que ficam, daquelas que cavalgam nas horas como se o mundo fosse delas. Ele segurava nas mãos o copo de café que o aquecia como se fosse um cobertor, e completava-a. Da graça nada lhe sabia. As linhas do corpo apenas as tinha explorado a noite passada. Agora aquele anjo caído nos lençóis, no mundo que não lhe pertence, mexia-se de repente. Era dotado de uma tal delicadeza que só os seus gestos se compreendiam e, em cada gesto daqueles em cada acordar, perdia um pouco do seu ar divino, ganhava mortalidade, tornava-se vulgar. 
Ele apenas a observava. Ela era agora mulher. Tentava, à força, uma sensualidade que perdera no seu despertar. Já não o cativava. Ele tinha visto um anjo e agora, apenas uma mulher. Apressou-se com cortesia, mandou-a embora com delicadeza, pediu-lhe que saísse. 
Depois de tudo era o seu momento. Ele podia ascender aos céus. Deitar-se. Morrer. Dormir, finalmente.
A noite acabou. Era um novo dia.

António Magalhães

terça-feira, 10 de abril de 2012

IV

Debaixo da varanda onde o republicano proferira palavras de outrora, a um público que já pouco existe, estava ele, sentado numa cadeira pouco comum. Quando me deparei com aquela figura, olhava as casas defronte já gastas, através de umas lentes escuras que o protegiam dos raios que lhe feriam as vistas, a sensibilidade dos olhos.
Notável era o conforto, o prazer e alegria que sentia no momento que lhe acontece duas ou três vezes por ano. Momentos efémeros. Os filhos. As histórias. Tudo lhe vincava o corpo, já descaído, cinzento, usado.
O sol não se foi, os raios não pararam, mas o momento acabou, e o velho, o velho desapareceu. 

Afrânio  Peixoto

VIII

Chegaram pontuais como dois cavalheiros que nunca se atrasam para um espectáculo. Não tinham comprado os bilhetes, coisa que afinal nem era necessária. Sentaram-se confortavelmente pelas ruas e esperaram o levantar do pano.
Não passou muito tempo até que um senhor viesse, com um ar apressado, apagar as velas dos candeeiros de rua. Não escureceu. Entra um garoto que atira ao público o guião. No título podia-se ler, "Le Courrier". Num gesto distraído cheiraram o jornal e levantaram os olhos.
No mercado as mulheres gritavam como se fossem divas apregoando peixes e legumes.
Passa uma jovem encantadora de cabelo mal apanhado. O cheiro intenso a ameixa que encostava ao decote, espremia sonhos e desejos de homens e rapazes que a olhavam com indelicadeza. Os dois amigos trocaram olhares e um só pensamento, "Que mundo devasso!"
Ao fundo, um homem baixinho de chapéu negro, óculos peculiares e à sua frente um copo de absinto, queimava cigarros e tomava uma bica.
A descer a rua, uma mulher sobe as saias, veste-se de preto, compõe a écharpe de seda que lhe cai sobre os ombros e lá longe vê a praia e toma-lhe as riscas.
O público acende agora o seu cachimbo. Inspirando o som grave libertado por outra mulher que diz, "Nada de nada." Bonita ela. Sofrida. Assemelhava-se a uma que ajeitava o xaile e que era lá da terra.
Dois homens com perspectivas bastante diferentes discutiam em pinceladas as tintas que cheiravam a Lisboa. Um argumentava os dedos numa guitarra e uma mulher debruçada sobre a mesa; o outro puxava de triângulos e quadados uma bela cabeça fria e industrial.

Baixou-se o pano.
Choveram rosas.
E nisto apenas um café se tinha bebido.
Bravo! Bravo!

António Magalhães
Afrânio Peixoto

domingo, 8 de abril de 2012

III

Era dia de coelho e eles comeram porco. O dia era de família, o almoço era de amigos. O forno funcionava no médio, mas teve que ser aumentado. Tudo parecia errado.
Aquela senhora marcada pelos anos não devia estar sozinha.  Eles nada lhe eram e estavam ali. O whisky, o porto, os favaios, o vinho, o verde, aqueles aromas que emavam de garrafas já secas, já sufocadas, pareciam esperar há muito aquele momento.
A conversa ofegante dos anos cansados surgiu. E no fundo, e no fim, tudo o que parecia errado bateu certo. Ela descansou na sua poltrona, feliz. Eles sairam um pouco mais sábios.

No dia da ressurreição, nada ficou por ali.

António Magalhães

II

Dois copos. O tinto. A agressividade presente no olhar de cada um e a indiferença nas palavras que soltavam para fazer acontecer uma noite diferente das outras. Os dois pensavam assim.
Comentavam estranhos que passavam...
As horas não acabavam...
Apenas o vermelho sangue do vinho animava aquela mesa do bar que lhes era habitual.

Acabou-se o copo. E o tinto do copo. 
E, começaram as horas:
- O Lugar é teu!

Afrânio Peixoto

sexta-feira, 6 de abril de 2012

I

Abre a cigarreira num gesto pesado, pegando num cigarro como quem puxa pela morte. Na chama elitista queima um prazer que poucos poderão entender. Alguns olhares interrompem o fumo num gesto capaz de demonstrar alguma admiração. Afinal, aquela figura tão só, cujo pescoço se ergue no ar, esconde em si algo incapaz de ser descodificado por leigos. À boca encosta um trago de fumo inspirando mais um pensamento. Com o olhar vazio enfrenta a vida, olha a janela, desloca-se do mundo ao qual não pertence.

António Magalhães