As velas estavam acesas, empestavam a sala com um leve cheiro a canela que deixava no ar uma pequena excitação.
Os olhares penetravam um no outro, os sorrisos meigos e delicados falavam as palavras que não se diziam.
Era o seu aniversário.
Na minha cara as gotas do suor que me paravam os ossos emanavam um mistério, e ela perguntava-me "Que preparaste para mim".
Eu não respondia. As horas inquietas teimavam em não passar. Deitava à boca a última gota de champanhe que preenchia o copo.
A campainha.
Levanto-me de rompante da mesa e vou à porta, rodo a maçaneta no sentido dos ponteiros do relógio. A porta abre.
Convidara-os para esta festa, para uma festa que nem eu próprio sabia se queria. São cinco.
Todos eles, cinco. Convido-os a entrar.
[Não em mim, nela. Não em mim.]
"Vem aqui meu amor." Ela aproxima-se e o seu rosto fica estampado com espanto.
Quase que consigo ouvir o seu pequeno coração quebrar o tórax. "São teus."
Ela agora caminha em direcção à sala e estes homens quase por instinto seguem-na. Eu fico aqui. Quieto.
Agarro a caixa das cigarrilhas e acendo uma. Fumo levemente o seu peso entre os meus dedos.
Agora vou para a sala.
Vejo-os selvagens, invadindo uma selva que é minha. MINHA!
Sento-me na cadeira de palhinha entrançada e fico a olha-los já nus, desbravando como cães rafeiros os contornos do corpo a que pelo sinal da cruz me pertence.
Ela finta-me prazerosamente. O meu corpo desfaz-se, mesmo ali, por entre as tranças da cadeira.
Hoje nunca mais te vi, do teu rosto pouco me lembro, já nem sei se estou aqui. Quem és tu?
Afrânio Peixoto