quarta-feira, 30 de maio de 2012

XVI

As mãos. As mãos de pianista tocavam harpa. Tocavam-lhe o corpo. Estava coberto de anéis, ouros e latões que não lhe davam jeito algum. Tinha os lábios cor de carmim. Lábios eloquentes aqueles, de onde só lhe saiam disparates. Riem, apaixonam-se. Entre bonecas de porcelana, camas de ferro e outros cacos que tais, eles tocavam-se, eles amavam-se, eles embrulhavam-se.
Numa bóia fora de sítio, salvavam o sonho, salvavam a alma, porque o corpo, esse, esse eles tinham entregue ao diabo na última vela que acenderam. Beberam vinho, comeram as costelas um do outro, entregaram-se por dois segundos. Antes que a noite acabasse, jogaram ténis com cavacas, inventaram vidas que não eram as deles.
Nas garrafas que espalharam pela sala, esconderam as expressões que só a eles lhes diziam respeito. E, antes que o dia começasse, livraram-se de tudo. Queimaram o caderninho preto onde tinham eternizado o momento. Foram à sua vida. Não partilharam mais nada, a não ser aquele segredo e o lenço de seda que às vezes lhes apertava o pescoço.

António Magalhães

sexta-feira, 25 de maio de 2012

XV

Há por aí pessoas bonitas!
Pessoas daquelas que passam na rua e só de passarem nos deixam leves. Elas sobem em bicicletas coloridas, enfeitadas com cestos, flores e pão. Vestem vestidos, vestem gravatas, usam cabelos soltos, colocam chapéus a flutuar sobre o seu andar tão encantador.
Foi numa tarde, quase de Primavera, que com uma besta em punho, talvez fosse um punhal ou um revólver daqueles bem pequenos, cujo cabo foi decorado por ourives, que fui para a esplanada. Em mim havia uma tal amargura, que abati todos os sorrisos como se fossem perdizes em época de caça. Há tanta raiva, há tanta raiva em mim. 
Na verdade, não saí do meu sofá, não vi o sol sequer, mas todos os risinhos que entraram pela janela eu matei. Eu matei, e assassino morri com todos aqueles punhais de felicidade espetados no peito, que agora, que agora e há muito já não sabe amar.

António Magalhães

XIV

Como tudo parecem velas. Juntas um mar de chamas. Um suspiro e apagam-se. Um olhar e acendem-se. 
O Infinito mostra-se por vezes tão perto e quando vejo o clarão e tento agarrá-lo, parece pó que se me cai por entre os dedos. Quando toca no chão, forma castelos onde me abrigo. Cercado de muralhas, guerreiros, setas e archotes. Se te aproximas, soerguem-se em minha defesa e chovem machados. Cem setas lançadas esventram-te.
Ali ficas ensanguentada.

Afrânio Peixoto

quarta-feira, 23 de maio de 2012

XIII

"Negue seu amor, o seu carinho"
ouvia-se da voz que vinha da grafonola. A agulha riscava as palavras do poeta brasileiro. Peixoto e Magalhães, lá estavam no café a fazer as tais coisas que lhes eram habituais, quando ao longe vêem a garota de corpo domado a sair da água, inspirando maresia. Naqueles dois corações quase londrinos, eles ansiavam ser marinheiros, carregar os barcos de cais em cais, não procurando conforto, não procurando dinheiro. Suspiram. Ouvem a voz que a baiana tem, escrevem cartas em pele de índia. Soltam o grito da liberdade dos negros e cobrem os corpos de búzios e tabacos.

- Camarada, o mar está perto. Põe o teu chapéu, eu acabo o meu cachimbo.
- Não somos mais que velhos tontos do Restelo sentados. Afrânio, repara, em tudo o que fazemos nunca sonhamos tão alto, nunca descobrimos nada.
- Porquê caro amigo, por que ao que buscamos saber ninguém nos responde?

António Magalhães
Afrânio Peixoto

quinta-feira, 10 de maio de 2012

XII

Ela seduzia-me sem querer e eu hipnotizava-me sem a olhar, sem pensar nesta relação que já era fruto caído mesmo quando brotava em flor. Era-me em vão sonhar. Afinal, tudo à minha volta era um jardim que enaltecera o seu propósito. 
Eu nada era, tinha ficado sem par, e entre aqueles fumos que agora me rodeavam, descobri-me. Naquele momento em que não te beijei, descobri um objectivo, tomei uma decisão e fui embora.

António Magalhães

terça-feira, 1 de maio de 2012

XI

Se o Não é tão pequena palavra, nele encosto todas aquelas que não consigo pronunciar.

Naquela noite ela dançava, com meias descidas, com cabelos negros a caírem-lhe sobre a pele clara. O outro, o bêbado, pintava-lho maiô tomando-a para ele. Os tons de azul afagavam-lhe a cabeça em jeito de pertença. No ritual da noite, o corpo de Toulousse abandonou o cabaret, deixando para trás a alma presa numa saia de cancan.

António Magalhães

X

Vejo cinco. Cinco panascas, com garrafa na mão, irresoluta, escura. Palavras insensatas presas de coração em coração. Fumam os seus cigarros meios longos e os gatos amacia os pêlos nas peles com as mãos de dedos infinitos que agarram os copos que eles bebem. Vinhos e vinhos, bebados proferindo palavras tortas e comendo palavras verdes achando que a meia noite é hora média.
Adeus. Garrafas já estão pelo meio. Cinzas sujas e porto castrado de línguas soltas por orquídeas roxas. O vermelho liberta-se sisudo. 
Vem, junta-te a mim, afasta os pêlos felinos que ofuscam os meus olhos e deixa o preto inundar o meu rosto de lágrimas que já secaram.

Afrânio Peixoto