quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

XX

Saudade, saudade que me desgastas e fazes ferver na memória sonhos que, enganando-me, julgo estarem adormecidos. Se te recordasses do café e do vinho de outrora… Os lábios pintavam-se de roxo por causa das uvas calcadas e o âmago da alma flutuava entre nuvens de fumo nascidas da ponta dos cigarros. Estremece-me o coração, hoje já meio descosido do corpo, quando me lembro do pormenor das meias com rendinhas que espreitavam por entre o corte da saia comprida que à força cobria as pernas tímidas, delicadas.
Não sei se ainda deambulas por aí e sorris quando os pássaros partem em debandada do cimo dos telhados. Nem sei se ris dando gritinhos e a tapar a cara com as mãos e por entre os dedos tentas contar as folhas dos caules dos narcisos, pois achavas que contar as pétalas obrigava a arrancá-las e "isso devia ser crime". Só sei que me desgasto de pensar e me desfaço e refaço, porque por ti, Saudade, não me canso de esperar.

Afrânio Peixoto

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

XIX

Era frio. As folhas boiavam na água gelada. O branco caia e formava montes que lembravam montanhas, onde os audazes rezam e penduram bandeirinhas coloridas que bailam ao vento que vem de uma outra alma.
Dotado de uma leveza que só vista, o  açúcar derretia na água fria, tal como uma melodia se desfaz na pele de uma bailarina que ontem enfeitamos de carmim.

António Magalhães

quarta-feira, 25 de julho de 2012

XVIII

Tingiste as camélias do meu prado com sangue de uma ferida que me abriste sem pedir licença. Ali pintadas de gotas vermelhas, escorrendo sobre a terra castanha, pálida e seca, passou-lhes nas pétalas uma brisa leve, fresca, confortável. Três dias depois correste a colher as flores quase mortas. Numa folha de jornal rasgada e suja, embrulhaste as camélias que um dia foram brancas sem pecado.
Aproximaste-te de mim oferecendo com a tua mão esquerda o ramo que fizeste, e na outra, fechada, trazias uma agulha e linhas para me coser a ferida ainda escancarada. Vieste enganado. Deixa-me estar nesta dor e olha-me nos meus olhos aguados de sal e tristeza. Esta é a verdadeira recordação que me hás-de sempre trazer.

Afrânio Peixoto

quarta-feira, 20 de junho de 2012

XVII

É na generalidade das situações que se evidencia, na maioria das vezes, a singularidade do ser, sobre isto pensava António.
Sentindo-se levemente entusiasmado pela forma como aquela mulher bebia o café. Ela cruzava as pernas, pegava na chávena de onde bebericava pequenos golos de tempos a tempos, não estava a fazer nada que lhe desse algum protagonismo ou que a fizesse sobressair. Não era particularmente bonita, também não tinha nada na cara que a fizesse parecer estranha, não aos olhos dos outros, mas no fundo, ela lá se fazia notar. 
Mais à frente na rua, ou então talvez só no tempo, uma nova situação que evidenciava a afirmação em cima presente. Ora lá estava, duas pessoas conversavam, não era bem uma conversa, não a dois. Um deles falava o outro ouvia, ouvia, ouvia. António pensava, aquele ouvinte em breve vai emitir uma opinião ou então levantar -se para ir à sua vida. Mas aquele não, ouvinte particular aquele. Não dizia nada, não estava sequer com um olhar atento. Fazia origamis, confrontava o ar, contava moscas junto à janela, e outro lá falava. 
No final, quando o outro lá acabou, já tinha despejado tudo o que trazia consigo, o falante diz: " estas a ouvir-me?". O ouvinte parou, olhou-o, cravou-lhe a alma, e disse-lhe num beijo que nenhum outro gestos podia substituir. " Escuto-te sempre, mas compreendo-te melhor quando nada dizes.".
António pensou naquilo e consentiu num gesto de cabeça a veracidade de tal afirmação. 
Se nos abstrair-mos então das pessoas e pensarmos nos leitos de água que rasgam a montanha, pensaríamos de certo que o caminho que escolhem diz tanto deles como os nomes que os outros lhes oferecem. 

É verdade, a singularidade do Ser surge na decisão de ser um Ser diferente quando a situação nos sugere que sejamos iguais, comuns, vulgares. Neste último momento duas crianças brincam num interactividade que só eles poderiam explicar, ele toma uma atitude e ela faz soar gargalhadas que soltaram depois lágrimas de saudade. António levanta-se, aborrece-se, tinha-se apercebido então que todos eram iguais e resumidos à generalidade de afirmarem a sua singularidade e nisto, tudo o que antes foi exposto perdeu o interesse. 
                                                                                                               

                                                                                                      António Magalhães

quarta-feira, 30 de maio de 2012

XVI

As mãos. As mãos de pianista tocavam harpa. Tocavam-lhe o corpo. Estava coberto de anéis, ouros e latões que não lhe davam jeito algum. Tinha os lábios cor de carmim. Lábios eloquentes aqueles, de onde só lhe saiam disparates. Riem, apaixonam-se. Entre bonecas de porcelana, camas de ferro e outros cacos que tais, eles tocavam-se, eles amavam-se, eles embrulhavam-se.
Numa bóia fora de sítio, salvavam o sonho, salvavam a alma, porque o corpo, esse, esse eles tinham entregue ao diabo na última vela que acenderam. Beberam vinho, comeram as costelas um do outro, entregaram-se por dois segundos. Antes que a noite acabasse, jogaram ténis com cavacas, inventaram vidas que não eram as deles.
Nas garrafas que espalharam pela sala, esconderam as expressões que só a eles lhes diziam respeito. E, antes que o dia começasse, livraram-se de tudo. Queimaram o caderninho preto onde tinham eternizado o momento. Foram à sua vida. Não partilharam mais nada, a não ser aquele segredo e o lenço de seda que às vezes lhes apertava o pescoço.

António Magalhães

sexta-feira, 25 de maio de 2012

XV

Há por aí pessoas bonitas!
Pessoas daquelas que passam na rua e só de passarem nos deixam leves. Elas sobem em bicicletas coloridas, enfeitadas com cestos, flores e pão. Vestem vestidos, vestem gravatas, usam cabelos soltos, colocam chapéus a flutuar sobre o seu andar tão encantador.
Foi numa tarde, quase de Primavera, que com uma besta em punho, talvez fosse um punhal ou um revólver daqueles bem pequenos, cujo cabo foi decorado por ourives, que fui para a esplanada. Em mim havia uma tal amargura, que abati todos os sorrisos como se fossem perdizes em época de caça. Há tanta raiva, há tanta raiva em mim. 
Na verdade, não saí do meu sofá, não vi o sol sequer, mas todos os risinhos que entraram pela janela eu matei. Eu matei, e assassino morri com todos aqueles punhais de felicidade espetados no peito, que agora, que agora e há muito já não sabe amar.

António Magalhães

XIV

Como tudo parecem velas. Juntas um mar de chamas. Um suspiro e apagam-se. Um olhar e acendem-se. 
O Infinito mostra-se por vezes tão perto e quando vejo o clarão e tento agarrá-lo, parece pó que se me cai por entre os dedos. Quando toca no chão, forma castelos onde me abrigo. Cercado de muralhas, guerreiros, setas e archotes. Se te aproximas, soerguem-se em minha defesa e chovem machados. Cem setas lançadas esventram-te.
Ali ficas ensanguentada.

Afrânio Peixoto