É na generalidade das situações que se evidencia, na maioria das vezes, a singularidade do ser, sobre isto pensava António.
Sentindo-se levemente entusiasmado pela forma como aquela mulher bebia o café. Ela cruzava as pernas, pegava na chávena de onde bebericava pequenos golos de tempos a tempos, não estava a fazer nada que lhe desse algum protagonismo ou que a fizesse sobressair. Não era particularmente bonita, também não tinha nada na cara que a fizesse parecer estranha, não aos olhos dos outros, mas no fundo, ela lá se fazia notar.
Mais à frente na rua, ou então talvez só no tempo, uma nova situação que evidenciava a afirmação em cima presente. Ora lá estava, duas pessoas conversavam, não era bem uma conversa, não a dois. Um deles falava o outro ouvia, ouvia, ouvia. António pensava, aquele ouvinte em breve vai emitir uma opinião ou então levantar -se para ir à sua vida. Mas aquele não, ouvinte particular aquele. Não dizia nada, não estava sequer com um olhar atento. Fazia origamis, confrontava o ar, contava moscas junto à janela, e outro lá falava.
No final, quando o outro lá acabou, já tinha despejado tudo o que trazia consigo, o falante diz: " estas a ouvir-me?". O ouvinte parou, olhou-o, cravou-lhe a alma, e disse-lhe num beijo que nenhum outro gestos podia substituir. " Escuto-te sempre, mas compreendo-te melhor quando nada dizes.".
António pensou naquilo e consentiu num gesto de cabeça a veracidade de tal afirmação.
Se nos abstrair-mos então das pessoas e pensarmos nos leitos de água que rasgam a montanha, pensaríamos de certo que o caminho que escolhem diz tanto deles como os nomes que os outros lhes oferecem.
É verdade, a singularidade do Ser surge na decisão de ser um Ser diferente quando a situação nos sugere que sejamos iguais, comuns, vulgares. Neste último momento duas crianças brincam num interactividade que só eles poderiam explicar, ele toma uma atitude e ela faz soar gargalhadas que soltaram depois lágrimas de saudade. António levanta-se, aborrece-se, tinha-se apercebido então que todos eram iguais e resumidos à generalidade de afirmarem a sua singularidade e nisto, tudo o que antes foi exposto perdeu o interesse.
António Magalhães
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