quarta-feira, 30 de maio de 2012

XVI

As mãos. As mãos de pianista tocavam harpa. Tocavam-lhe o corpo. Estava coberto de anéis, ouros e latões que não lhe davam jeito algum. Tinha os lábios cor de carmim. Lábios eloquentes aqueles, de onde só lhe saiam disparates. Riem, apaixonam-se. Entre bonecas de porcelana, camas de ferro e outros cacos que tais, eles tocavam-se, eles amavam-se, eles embrulhavam-se.
Numa bóia fora de sítio, salvavam o sonho, salvavam a alma, porque o corpo, esse, esse eles tinham entregue ao diabo na última vela que acenderam. Beberam vinho, comeram as costelas um do outro, entregaram-se por dois segundos. Antes que a noite acabasse, jogaram ténis com cavacas, inventaram vidas que não eram as deles.
Nas garrafas que espalharam pela sala, esconderam as expressões que só a eles lhes diziam respeito. E, antes que o dia começasse, livraram-se de tudo. Queimaram o caderninho preto onde tinham eternizado o momento. Foram à sua vida. Não partilharam mais nada, a não ser aquele segredo e o lenço de seda que às vezes lhes apertava o pescoço.

António Magalhães

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