quarta-feira, 23 de maio de 2012

XIII

"Negue seu amor, o seu carinho"
ouvia-se da voz que vinha da grafonola. A agulha riscava as palavras do poeta brasileiro. Peixoto e Magalhães, lá estavam no café a fazer as tais coisas que lhes eram habituais, quando ao longe vêem a garota de corpo domado a sair da água, inspirando maresia. Naqueles dois corações quase londrinos, eles ansiavam ser marinheiros, carregar os barcos de cais em cais, não procurando conforto, não procurando dinheiro. Suspiram. Ouvem a voz que a baiana tem, escrevem cartas em pele de índia. Soltam o grito da liberdade dos negros e cobrem os corpos de búzios e tabacos.

- Camarada, o mar está perto. Põe o teu chapéu, eu acabo o meu cachimbo.
- Não somos mais que velhos tontos do Restelo sentados. Afrânio, repara, em tudo o que fazemos nunca sonhamos tão alto, nunca descobrimos nada.
- Porquê caro amigo, por que ao que buscamos saber ninguém nos responde?

António Magalhães
Afrânio Peixoto

quinta-feira, 10 de maio de 2012

XII

Ela seduzia-me sem querer e eu hipnotizava-me sem a olhar, sem pensar nesta relação que já era fruto caído mesmo quando brotava em flor. Era-me em vão sonhar. Afinal, tudo à minha volta era um jardim que enaltecera o seu propósito. 
Eu nada era, tinha ficado sem par, e entre aqueles fumos que agora me rodeavam, descobri-me. Naquele momento em que não te beijei, descobri um objectivo, tomei uma decisão e fui embora.

António Magalhães

terça-feira, 1 de maio de 2012

XI

Se o Não é tão pequena palavra, nele encosto todas aquelas que não consigo pronunciar.

Naquela noite ela dançava, com meias descidas, com cabelos negros a caírem-lhe sobre a pele clara. O outro, o bêbado, pintava-lho maiô tomando-a para ele. Os tons de azul afagavam-lhe a cabeça em jeito de pertença. No ritual da noite, o corpo de Toulousse abandonou o cabaret, deixando para trás a alma presa numa saia de cancan.

António Magalhães

X

Vejo cinco. Cinco panascas, com garrafa na mão, irresoluta, escura. Palavras insensatas presas de coração em coração. Fumam os seus cigarros meios longos e os gatos amacia os pêlos nas peles com as mãos de dedos infinitos que agarram os copos que eles bebem. Vinhos e vinhos, bebados proferindo palavras tortas e comendo palavras verdes achando que a meia noite é hora média.
Adeus. Garrafas já estão pelo meio. Cinzas sujas e porto castrado de línguas soltas por orquídeas roxas. O vermelho liberta-se sisudo. 
Vem, junta-te a mim, afasta os pêlos felinos que ofuscam os meus olhos e deixa o preto inundar o meu rosto de lágrimas que já secaram.

Afrânio Peixoto


sábado, 28 de abril de 2012

IX

Estavam à beira do Mississípi. No barco que o atravessava ouvia-se uma jam, lembrava-se o Tom Sawyer. O azul pairava-lhes no peito. O candeeiro, a meia luz, balançava sobre o copo de whisky. A voz negra, o rouco, o cego, tocava emoções. Tocava piano, suava a saxofone, deixava saudade. Entre gospel e obscenidades sentia-se um arrepio na pele. Sentia-se um contrabaixo, "Yeah, It's my baby!"
Esta é a igreja onde as regras são rainhas, onde o preto da raça é a raiz de três acordes. E isto, e tudo isto!, enche-me o peito, vibra-me cá dentro, faz-me verter lágrimas de vida que é sentida, vivida e, jamais, em momento algum, arrependida.


António Magalhães

sábado, 14 de abril de 2012

VII

Lá estava ele, esperando, não que a sua nobre companhia não fosse pontual mas mesmo assim... As pessoas esperavam-no.
Franzino, com o seu colete vistoso de estampa de sofá, bordado com linhas requintadas, aparentava-se a um pássaro. A um pássaro daqueles que ficam pousados no ramo mais alto das árvores, inchando o peito. 
Aquela postura era-lhe necessária, afinal não se critica de baixo.
No seu ar meio distraído, ele entretinha-se a criticar o mundo. Às vezes profissionalmente, outras por diversão. Com um ar bem irónico.
Aquele que o esperava interrogava-se, agora, como podia aquela figura apaixonada ser um destruidor dos sonhos daqueles que, na sua ingenuidade, acreditavam nas mães que diziam "O meu filho é um artista." Mas não eram. Nem talento. Nem espírito. Apenas aspiração.

De repente o pensamento foi-se em sobressalto, o café entornou-se com uma voz familiar que exclamou chilreando:
Boa noite, caro Amigo!

António Magalhães

sexta-feira, 13 de abril de 2012

VI

   As velas estavam acesas, empestavam a sala com um leve cheiro a canela que deixava no ar uma pequena excitação.
  Os olhares penetravam um no outro, os sorrisos meigos e delicados falavam as palavras que não se diziam.
  Era o seu aniversário.
  Na minha cara as gotas do suor que me paravam os ossos emanavam um mistério, e ela perguntava-me "Que preparaste para mim".
  Eu não respondia. As horas inquietas teimavam em não passar. Deitava à boca a última  gota de champanhe que preenchia o copo.

  A campainha.

  Levanto-me de rompante da mesa e vou à porta, rodo a maçaneta no sentido dos ponteiros do relógio. A porta abre.
  Convidara-os para esta festa, para uma festa que nem eu próprio sabia se queria. São cinco.
  Todos eles, cinco. Convido-os a entrar.
  [Não em mim, nela. Não em mim.]
  "Vem aqui meu amor." Ela aproxima-se e o seu rosto fica estampado com espanto.
  Quase que consigo ouvir o seu pequeno coração quebrar o tórax. "São teus."
  Ela agora caminha em direcção à sala e estes homens quase por instinto seguem-na. Eu fico aqui. Quieto.
  Agarro a caixa das cigarrilhas e acendo uma. Fumo levemente o seu peso entre os meus dedos.
  Agora vou para a sala.
  Vejo-os selvagens, invadindo uma selva que é minha. MINHA!
  Sento-me na cadeira de palhinha entrançada e fico a olha-los já nus, desbravando como cães rafeiros os contornos do corpo a que pelo sinal da cruz me pertence.
  Ela finta-me prazerosamente. O meu corpo desfaz-se, mesmo ali, por entre as tranças da cadeira.


  Hoje nunca mais te vi, do teu rosto pouco me lembro, já nem sei se estou aqui. Quem és tu?


                                                                                        Afrânio Peixoto