quinta-feira, 12 de abril de 2012

V

Era uma noite de insónias, daquelas que vêm, daquelas que ficam, daquelas que cavalgam nas horas como se o mundo fosse delas. Ele segurava nas mãos o copo de café que o aquecia como se fosse um cobertor, e completava-a. Da graça nada lhe sabia. As linhas do corpo apenas as tinha explorado a noite passada. Agora aquele anjo caído nos lençóis, no mundo que não lhe pertence, mexia-se de repente. Era dotado de uma tal delicadeza que só os seus gestos se compreendiam e, em cada gesto daqueles em cada acordar, perdia um pouco do seu ar divino, ganhava mortalidade, tornava-se vulgar. 
Ele apenas a observava. Ela era agora mulher. Tentava, à força, uma sensualidade que perdera no seu despertar. Já não o cativava. Ele tinha visto um anjo e agora, apenas uma mulher. Apressou-se com cortesia, mandou-a embora com delicadeza, pediu-lhe que saísse. 
Depois de tudo era o seu momento. Ele podia ascender aos céus. Deitar-se. Morrer. Dormir, finalmente.
A noite acabou. Era um novo dia.

António Magalhães

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