terça-feira, 10 de abril de 2012

VIII

Chegaram pontuais como dois cavalheiros que nunca se atrasam para um espectáculo. Não tinham comprado os bilhetes, coisa que afinal nem era necessária. Sentaram-se confortavelmente pelas ruas e esperaram o levantar do pano.
Não passou muito tempo até que um senhor viesse, com um ar apressado, apagar as velas dos candeeiros de rua. Não escureceu. Entra um garoto que atira ao público o guião. No título podia-se ler, "Le Courrier". Num gesto distraído cheiraram o jornal e levantaram os olhos.
No mercado as mulheres gritavam como se fossem divas apregoando peixes e legumes.
Passa uma jovem encantadora de cabelo mal apanhado. O cheiro intenso a ameixa que encostava ao decote, espremia sonhos e desejos de homens e rapazes que a olhavam com indelicadeza. Os dois amigos trocaram olhares e um só pensamento, "Que mundo devasso!"
Ao fundo, um homem baixinho de chapéu negro, óculos peculiares e à sua frente um copo de absinto, queimava cigarros e tomava uma bica.
A descer a rua, uma mulher sobe as saias, veste-se de preto, compõe a écharpe de seda que lhe cai sobre os ombros e lá longe vê a praia e toma-lhe as riscas.
O público acende agora o seu cachimbo. Inspirando o som grave libertado por outra mulher que diz, "Nada de nada." Bonita ela. Sofrida. Assemelhava-se a uma que ajeitava o xaile e que era lá da terra.
Dois homens com perspectivas bastante diferentes discutiam em pinceladas as tintas que cheiravam a Lisboa. Um argumentava os dedos numa guitarra e uma mulher debruçada sobre a mesa; o outro puxava de triângulos e quadados uma bela cabeça fria e industrial.

Baixou-se o pano.
Choveram rosas.
E nisto apenas um café se tinha bebido.
Bravo! Bravo!

António Magalhães
Afrânio Peixoto

1 comentário:

  1. "Um argumentava os dedos numa guitarra e uma mulher debruçada sobre a mesa"

    adoro. que bonito está! :D

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